Terapia de reposição de testosterona: riscos, benefícios e quando ela é indicada
Testosterona baixa ainda é um diagnóstico subvalorizado. Muitos homens vivem anos com cansaço inexplicável, perda de massa muscular, queda de libido e humor deprimido — sem investigar os níveis hormonais. Quando o diagnóstico finalmente aparece, vem uma segunda barreira: o medo dos riscos da reposição. Este artigo existe para colocar os fatos no lugar certo, com base no que a ciência mais recente realmente diz.
Como saber se a testosterona está baixa — os sintomas que o exame confirma
O hipogonadismo masculino — nome técnico para a deficiência de testosterona — não se manifesta de uma hora para outra. É uma queda gradual que vai sendo atribuída ao estresse, à idade ou ao ritmo de vida. Os sintomas se organizam em domínios clínicos:
- Sexual: queda de libido, disfunção erétil, ausência de ereções matinais, redução do volume ejaculatório
- Composição corporal: perda de massa muscular mesmo com treino regular, aumento de gordura abdominal e visceral, dificuldade de emagrecer
- Humor e cognição: fadiga persistente desproporcional ao esforço, humor deprimido, irritabilidade, perda de motivação e foco
- Físico e sistêmico: redução de pelos corporais, ginecomastia, osteopenia
O diagnóstico não é feito por sintoma isolado — requer dosagem de testosterona total e livre em duas coletas distintas, preferencialmente pela manhã, quando os níveis são mais altos. Testosterona total abaixo de 300-350 ng/dL associada a sintomas clínicos pode caracterizar um quadro de hipogonadismo com indicação de tratamento.
O que a reposição de testosterona realmente faz
Quando bem indicada, a TRT produz benefícios documentados em estudos clínicos controlados:
- Composição corporal: aumento de massa muscular e redução de gordura visceral, com efeitos visíveis a partir de 3 a 6 meses de tratamento
- Energia e disposição: melhora consistente de fadiga e motivação — um dos efeitos mais relatados pelos pacientes nas primeiras semanas
- Função sexual: restauração da libido e melhora da função erétil, especialmente quando a causa é hormonal
- Saúde óssea: aumento de densidade mineral óssea, com redução do risco de osteoporose a longo prazo
- Humor e cognição: redução de sintomas depressivos e melhora de função cognitiva em homens hipogonádicos
- Sensibilidade à insulina: estudos mostram melhora do controle glicêmico e redução de risco de diabetes tipo 2 com a normalização dos níveis de testosterona
O estudo que mudou o debate sobre segurança cardiovascular
Durante anos, a maior resistência à TRT foi o suposto risco cardiovascular. Esse debate foi resolvido de forma definitiva em 2023 pelo estudo TRAVERSE — o maior ensaio clínico randomizado e controlado já feito sobre testosterona, publicado no New England Journal of Medicine.
O TRAVERSE acompanhou 5.246 homens entre 45 e 80 anos, com hipogonadismo confirmado e risco cardiovascular elevado ou doença cardiovascular preexistente. O resultado: a TRT não aumentou o risco de eventos cardiovasculares maiores — infarto, AVC ou morte cardiovascular — em comparação ao placebo.
Mais do que isso: o estudo mostrou redução de 22,5% na incidência de diabetes de início recente no grupo que recebeu testosterona. Em 2025, com base nesses dados, o FDA removeu o alerta de caixa preta que existia sobre risco cardiovascular da TRT, já que o consenso científico mudou.
O TRAVERSE também identificou dois pontos que merecem atenção: pequeno aumento no risco de fibrilação atrial e de litíase renal. Esses dados reforçam a necessidade de acompanhamento clínico regular — não de abandono do tratamento.
Os riscos reais — e como são manejados
A TRT bem conduzida tem um perfil de segurança estabelecido. Os pontos que exigem monitoramento:
- Hematócrito: a testosterona estimula a produção de glóbulos vermelhos. Elevação acima do normal pode aumentar viscosidade sanguínea — monitorada com hemograma periódico
- Próstata: a testosterona não causa câncer de próstata, mas pode estimular um tumor preexistente não diagnosticado. PSA e toque retal fazem parte do protocolo antes de iniciar o tratamento
- Fertilidade: a TRT suprime a produção endógena de testosterona e pode reduzir a fertilidade. Para homens que desejam ter filhos, existem protocolos alternativos que preservam a espermatogênese
As contraindicações absolutas incluem câncer de próstata ou de mama ativo, hematócrito elevado não tratado e apneia do sono grave não controlada.
TRT não é para todo mundo — e é exatamente por isso que funciona
O problema com a testosterona no contexto atual não é o tratamento. É o uso indiscriminado, sem diagnóstico, sem exames, sem acompanhamento. Homens que se automedicam com testosterona sem ter hipogonadismo confirmado não só não colhem os benefícios — como assumem os riscos sem indicação.
A reposição funciona porque corrige uma deficiência real. Quando o diagnóstico é preciso, a dose é ajustada individualmente e o acompanhamento é regular, a TRT é um tratamento seguro, eficaz e com impacto significativo na qualidade de vida.
Se você tem sintomas que podem indicar deficiência de testosterona, o primeiro passo é investigar — com os exames certos, no momento certo, lidos por quem entende do assunto. Agende uma consulta para avaliarmos o seu perfil hormonal de forma completa e decidirmos juntos o melhor caminho.
Referências:
- TRAVERSE Trial — New England Journal of Medicine (2023)
- PMC — Cardiovascular safety of testosterone therapy: TRAVERSE and beyond (2026)
- Portal Afya — Reposição de testosterona para o clínico (ACP 2024)
- SciELO — Benefícios e riscos do tratamento da andropausa
- Sanar Med — TRT: indicações e contraindicações
- Instituto CDT — Hipogonadismo masculino: diagnóstico clínico e laboratorial
Sobre o autor:

Dr. Rodrigo Avelini é médico, graduado pela Universidade Federal da Bahia e com especialização em Nutrologia pela Universidade de São Paulo (USP). Possui também pós graduação em Nutrição Esportiva e Obesidade (USP). Entre em contato ou agende uma consulta pelo site.